
A palavra “notário” designa um oficial público encarregado de autenticar atos jurídicos. Em francês, este termo pertence à categoria dos nomes épicenos: sua forma permanece idêntica no masculino e no feminino. Apenas o determinante muda. Escreve-se “um notário” para um homem, “uma notária” para uma mulher.
Notário épiceno: o que diz a gramática francesa
Um nome épiceno mantém a mesma terminação independentemente do gênero da pessoa designada. A palavra “notário” funciona exatamente como “jornalista”, “gestor” ou “arquiteto”. Nenhuma transformação morfológica ocorre no feminino.
O gênero gramatical é marcado pelo artigo (“o” ou “a”, “um” ou “uma”) e pelos acordos dos adjetivos ou particípios que acompanham o nome. Assim, dir-se-á “a notária competente” ou “o notário competente”, conforme a pessoa em questão.
Essa mecânica gramatical não apresenta nenhuma dificuldade técnica. A questão que frequentemente surge ao tentar dizer uma notária mulher ou homem está mais relacionada ao uso social do que à regra linguística em si. A gramática é clara: ambas as formas estão corretas.

Relatório da Academia Francesa sobre a feminização dos nomes de profissões
O relatório de 1º de março de 2019 da Academia Francesa marca uma virada. A instituição, por muito tempo relutante em relação à feminização dos títulos profissionais, reconhece explicitamente que os nomes de profissões podem ser usados no feminino quando a língua o permite naturalmente.
Para os nomes épicenos como “notário”, a Academia confirma que o feminino se forma pela simples mudança de determinante. O Dicionário da Academia Francesa, em sua 9ª edição online, menciona agora que “notário” também pode ser usado no feminino.
Por que este relatório é importante
A Academia Francesa não legisla sobre a língua: observa e registra o uso. Seu relatório de 2019 pôs fim a uma ambiguidade que durava há várias décadas. Antes dessa data, alguns falantes hesitavam em escrever “uma notária” por medo de infringir uma norma gramatical. O relatório elimina essa hesitação de forma inequívoca.
O guia de redação TERMIUM Plus, ferramenta de referência terminológica canadense, também classifica “notário” entre os nomes épicenos. O exemplo “uma notária” aparece ao lado de “uma gestora” ou “uma jornalista”, o que confirma a convergência das normas francófonas nesse ponto.
Senhor ou senhora: a fórmula de cortesia para um notário
O título profissional do notário é “Senhor”, abreviado como “Sr.”. Este título se aplica indistintamente a homens e mulheres que exercem essa profissão. Dirige-se a uma mulher notária chamando-a de “Senhor”, e não “Senhora”.
A confusão vem do fato de que “senhora” existe como feminino de “senhor” na linguagem comum (senhor de escola / senhora de escola). No contexto jurídico, o título “Senhor” permanece invariável independentemente do gênero da pessoa.
Formas de tratamento em uma carta ou e-mail
A redação de uma carta endereçada a um notário segue convenções precisas:
- Na abertura da carta ou do e-mail, escrever “Cara Senhor” para uma mulher notária ou “Caro Senhor” para um homem notário
- Nas fórmulas de saudações finais, repetir “Senhor” tal como está, por exemplo: “Atenciosamente, Senhor, a expressão das minhas saudações distintas”
- Na embalagem ou no campo destinatário, indicar “Senhor” seguido do nome, sem menção de “Senhora” ou “Senhor” como prefixo
Essas convenções também se aplicam aos escrivães de notário quando eles têm o título de Senhor, o que depende de seu status exato dentro do escritório.

Notária: um termo a evitar na redação profissional
A palavra “notária” existe em alguns dicionários históricos. Ela designava antigamente a esposa de um notário, não uma mulher que exerce a profissão. Essa distinção é fundamental.
O Wiktionary lista o termo e confirma seu caráter antiquado. O dicionário Usito, referência canadense, também o menciona como arcaico. Nenhuma instituição francófona recomenda “notária” para designar uma mulher notária.
Usar “notária” em uma correspondência profissional ou em um ato jurídico seria visto como um erro, ou até mesmo como uma falta de consideração. O termo correto permanece “notário”, precedido do artigo feminino quando a situação exige.
Feminização das profissões do direito: onde está o uso
A profissão notarial conta hoje com uma proporção crescente de mulheres. Essa evolução sociológica acelera a normalização do feminino “uma notária” na língua corrente, assim como nos textos oficiais.
As profissões jurídicas vizinhas tiveram trajetórias semelhantes. “Advogada” se impôs sem dificuldade, pois a palavra possui uma forma feminina morfologicamente distinta. Para os nomes épicenos como “notário” ou “juiz”, a transição foi mais lenta, pois se baseia apenas na mudança de determinante, menos visível na oralidade.
- “Juiz” funciona como “notário”: diz-se “uma juiz” sem transformação da palavra
- “Advogada” adota uma terminação feminina marcada, o que facilitou sua adoção
- “Escrivã” segue o modelo clássico de feminização por adição do sufixo “-ã”
- “Oficial de justiça” tende a substituir progressivamente “oficial” no feminino, embora o uso ainda hesite
A tendência geral é a adoção sistemática do feminino para todos os nomes de profissões. As resistências, quando existem, estão mais relacionadas ao hábito do que a um obstáculo gramatical real.
A gramática francesa dispõe de todas as ferramentas necessárias para nomear corretamente uma mulher notária. Escrever “uma notária” ou “a notária” é gramaticalmente correto, institucionalmente validado e socialmente esperado. A única verdadeira armadilha permanece “notária”, a ser reservada para conversas sobre a história da língua.